2021 foi um ano de saneamento patrimonial e reposicionamento estratégico para a Azevedo & Travassos. A companhia saiu de uma situação de patrimônio líquido negativo em 2020 para patrimônio líquido positivo em 2021, após aumento de capital, redução de passivos, reestruturação societária e aquisição da Heftos Óleo & Gás Construções S.A. O lucro líquido consolidado foi elevado, mas não deve ser lido como lucro operacional recorrente. A própria administração indicou que o resultado favorável decorreu principalmente de efeitos contábeis relacionados à venda da Azevedo & Travassos Engenharia Ltda.
AZEV3 - Azevedo & Travassos
Empresa centenária que atua na prestação de serviços especializados em engenharia e construção pesada. A companhia foca no desenvolvimento de grandes obras de infraestrutura — como construção e pavimentação de rodovias, pontes, barragens e aeroportos —, além de ter uma forte operação de montagem industrial, engenharia consultiva e manutenção voltada essencialmente para o setor de óleo e gás (através da marca Heftos). Recentemente, a empresa expandiu seu modelo de negócios para atuar também como concessionária de rodovias e serviços de saneamento.
11/12/2015 R$ 0,01
30/04/2015 R$ 0,02
05/12/2014 R$ 0,05
Análise de preço da ação
Leitura de valuation cruzando preço de mercado, proventos e fundamentos auditáveis.
Desconto com risco elevado
A Azevedo & Travassos negocia com valor de mercado de apenas R$79,21 mi, com cotação próxima da mínima de 52 semanas (R$0,15) e P/VP de 0,7x, ou seja, abaixo do patrimônio líquido contábil. Os múltiplos de lucro e EBITDA aparecem negativos (P/L de -0,1x e EV/EBITDA de -1,7x) porque o último anual (2025) trouxe prejuízo elevado de R$618,3 mi e EBITDA negativo, muito impactado pelo evento MKS, impairment e baixas de intangíveis. Há sinais reais de virada operacional: no 1T26 a receita cresceu 184,9% na comparação anual, o EBIT voltou a ser positivo, o caixa operacional ficou positivo em R$18,9 mi e a companhia reportou o primeiro lucro líquido em dez anos (R$0,95 mi), apoiada por um backlog de R$3,5 bi.
O desconto, porém, não é limpo. O lucro do trimestre ainda é muito pequeno e só virou positivo com ajuda de tributos diferidos, já que o resultado financeiro negativo de R$14,9 mi praticamente consumiu o EBIT. O patrimônio líquido segue baixo (R$112,7 mi) frente a prejuízos acumulados superiores a R$1 bi, a dívida líquida subiu de forma relevante e o passivo circulante aumentou para R$686,5 mi. Por isso a leitura é de desconto com risco: a recuperação é recente e ainda precisa ser confirmada na conversão do backlog em receita, margem, caixa e lucro recorrente, além da redução do peso financeiro e do risco de governança evidenciado pelo caso MKS.
Indicadores principais
Primeiro lucro líquido em 10 anos e backlog robusto marcam o 1T26, mas lucro pequeno e passivo de curto prazo mantêm classificação de cautela.
A empresa deve seguir em cautela, com viés de melhora. O 1T26 mostrou forte crescimento de receita, lucro bruto maior, EBIT positivo, caixa operacional positivo, backlog robusto e o primeiro lucro líquido positivo dos últimos 10 anos. Porém, o lucro ainda é pequeno, o resultado financeiro pesa, o patrimônio líquido continua baixo, os prejuízos acumulados são elevados e o passivo de curto prazo aumentou. O agente deve acompanhar se a companhia conseguirá converter backlog em receita, margem, caixa e lucro recorrente.
Trajetória recente
A Azevedo & Travassos encerrou 2022 em uma fase de transição entre a reestruturação patrimonial de 2021 e a tentativa de retomada operacional mais consistente. O ano mostrou forte crescimento de receita e de backlog, mas também revelou que a companhia ainda não havia transformado essa retomada comercial em lucro e caixa operacional positivo. Em 2021, a empresa havia apresentado lucro elevado por efeitos contábeis ligados à venda da Azevedo & Travassos Engenharia e à aquisição da Heftos. Em 2022, esses efeitos não se repetiram.
2023 foi um ano de melhora parcial e reposicionamento estratégico para a Azevedo & Travassos. A companhia ainda permaneceu em turnaround, com prejuízo líquido e caixa operacional negativo, mas reduziu perdas, melhorou o lucro bruto, reforçou muito o patrimônio líquido via aumento de capital e criou a Azevedo & Travassos Petróleo S.A. A operação continuou maior que em 2021, sustentada por contratos de infraestrutura, Heftos e oportunidades em óleo e gás.
2024 foi um ano de deterioração severa e reorganização societária para a Azevedo & Travassos. A companhia fez movimentos estratégicos relevantes, como aquisição da Phoenix, avanço da frente de petróleo, cisão da ATE/ATP/Phoenix e incorporação de MKS e Congem, mas esses movimentos não se traduziram em melhora operacional no exercício. A receita caiu fortemente em relação a 2023, o lucro bruto praticamente desapareceu e o prejuízo líquido aumentou de forma expressiva.
2025 foi um ano de recuperação operacional, mas com forte destruição contábil para a Azevedo & Travassos. A companhia voltou a crescer receita, melhorou margem bruta, ampliou muito o backlog e concluiu a reorganização societária iniciada em 2024. Esses pontos indicam melhora relevante da operação subjacente. Por outro lado, o prejuízo líquido foi extremamente elevado, impactado principalmente por efeitos relacionados à MKS, impairment, baixas de intangíveis e alienação de investimento.
Resumo fundamentalista
A Azevedo & Travassos iniciou 2026 com forte crescimento operacional e reversão para lucro líquido positivo. O 1T26 marcou um trimestre importante na recuperação da companhia, com avanço expressivo de receita, lucro bruto, EBIT, caixa operacional positivo e backlog robusto. A administração destacou que este foi o primeiro lucro líquido positivo dos últimos 10 anos.
A receita líquida consolidada foi de R$148,8 milhões no 1T26, crescimento de 184,9% em relação ao 1T25 e de 45,6% frente ao 4T25. A receita bruta consolidada atingiu R$162,3 milhões, alta de 186,7% em relação ao 1T25. O crescimento reflete maior execução de contratos, consolidação da carteira operacional e avanço das verticais de engenharia e infraestrutura.
O lucro bruto consolidado foi de R$27,1 milhões, crescimento de 73,5% em relação ao 1T25, com margem bruta de 18,2%. O EBIT consolidado foi de R$14 milhões, contra R$1,5 milhão no 1T25. Esse avanço mostra melhora relevante de alavancagem operacional e maior capacidade de converter crescimento de receita em resultado.
O lucro líquido consolidado foi de R$0,95 milhão, revertendo prejuízo de R$13,5 milhões no 1T25. A companhia também apresentou caixa operacional consolidado positivo de R$18,9 milhões, contra consumo de caixa no mesmo período do ano anterior. Esses pontos indicam recuperação operacional real.
A ressalva é que a estrutura financeira ainda exige cautela. A companhia ainda carrega prejuízos acumulados muito elevados, patrimônio líquido baixo frente ao tamanho do passivo, obrigações tributárias e outras contas a pagar relevantes, além de resultado financeiro negativo. A recuperação é clara, mas ainda recente.
A leitura central para o usuário é que Azevedo & Travassos no 1T26 deve ser classificada como cautela, com viés de melhora. O trimestre foi operacionalmente positivo e mostra possível virada, mas a empresa ainda precisa comprovar recorrência do lucro, continuidade da execução do backlog, melhora estrutural do balanço e redução gradual do risco financeiro.
Pontos de atenção
O principal risco é a fragilidade histórica do balanço. A companhia ainda carrega prejuízos acumulados superiores a R$1 bilhão e patrimônio líquido baixo frente ao tamanho dos passivos. A reversão para lucro no 1T26 é positiva, mas ainda muito recente para eliminar o risco estrutural.
O segundo risco é o resultado financeiro. O resultado financeiro consolidado negativo de R$14,9 milhões praticamente consumiu todo o lucro operacional. A empresa precisa continuar expandindo EBIT e caixa para reduzir a sensibilidade ao custo financeiro.
O terceiro risco é o capital de giro. O crescimento da operação aumentou contas a receber, adiantamentos a fornecedores e outros créditos. Em empresas de engenharia e infraestrutura, o ciclo financeiro dos contratos pode pressionar caixa se medições, recebimentos e pagamentos não forem bem coordenados.
O quarto risco é a execução do backlog. O backlog de R$3,5 bilhões é um ponto muito positivo, mas precisa ser convertido em receita, margem e caixa. Projetos de infraestrutura e engenharia têm riscos de prazo, custo, aditivos, medições, reajustes, clientes públicos ou privados e execução operacional.
O quinto risco é a qualidade da recorrência do lucro. A companhia registrou o primeiro lucro líquido positivo dos últimos 10 anos. Isso é um marco importante, mas ainda precisa ser confirmado nos próximos trimestres para virar uma nova tendência fundamentalista.
Também permanecem riscos ligados a obrigações tributárias, passivos trabalhistas e cíveis, estrutura de holding, reorganização societária, concessões, investimentos em infraestrutura, saneamento, rodovias, óleo e gás, além de dependência de novos contratos e execução técnica.
Leitura final
Azevedo & Travassos no 1T26 deve ser lida como uma virada operacional importante. A companhia cresceu receita de forma expressiva, aumentou lucro bruto, entregou EBIT positivo, gerou caixa operacional positivo e voltou ao lucro líquido após muitos anos de prejuízo. O backlog de R$3,5 bilhões e o pipeline elevado reforçam a possibilidade de continuidade da recuperação.
A ressalva é que a situação ainda não está totalmente normalizada. O lucro líquido foi pequeno, o resultado financeiro ainda pesa, o patrimônio líquido continua baixo, os prejuízos acumulados são muito elevados e o passivo de curto prazo aumentou. A empresa ainda precisa provar que a recuperação é recorrente e que consegue transformar backlog em caixa e lucro de forma sustentável.
Para o usuário, Azevedo & Travassos deve ser classificada como cautela, com viés de melhora. O trimestre é claramente positivo, mas ainda não justifica sinal verde. O acompanhamento dos próximos períodos deve focar em receita executada, margem bruta, EBIT, caixa operacional, contas a receber, passivos de curto prazo, resultado financeiro, evolução do backlog e recorrência do lucro líquido.